a dor que é fruto

No som agora toca Mozart, ele me inspira. Deixo meus dedos batucarem as teclas como numa dança típica lá do Sul. Também tem o frevo e o maracatu, tudo do norte. E cadê o meu? Meu norte, você está aí?

Neste vento gelado que traz a nuvem carregada da escuridão da chuva, lavo minhas memórias e digo que precisamos falar das nossas dores. Dos nossos amores, viagens e comidas também. Mas as dores desencadeiam a necessidade, as necessidades.

Já estive do lado de lá da dor, aquele lado que tenho a certeza que a ela não conseguirá me tocar. Como uma criança brincando de pega-pega: “Lá, lá, lá, você não me pega!”. Doce ilusão. Aliás, doce é algo que minha dor a-do-ra. As vezes chego a ter certeza de que ela aparece só pra poder comer um pedaço daquela torta de morangos da padaria, ou o brigadeiro cheio de mequetrefes açucares… minha dor é ambígua e chega sem a menor piedade. E bagunça tudo. Domina quase que todos os poros – que então ficam fedidos sem espaço para transpirar; e abraça minha mente. Paralisando. Gerundiando os dias presentes que quero que sejam passado.

Dor de unha, de amor, de queda, de perda, de barriga, cabeça ou coluna. Dores que cutucam fundo e sábio é aquele que com a dor dialoga! Primeiro observa feito passarinho no ninho, depois vai chegando perto como cutucar onça com vara curta e então abraça o capeta. Que de capeta não tem nada, pois é mesmo um anjo de belas asas que vem assim, de supetão, para avivar a alma!

Cheia de calma, ela deita na cama e se estende para alongar os “porquês” de se aparecer nesta hora. Sem hora, uma velha senhora. Que de mãos dadas com meu corpo grita, chora, grita mais, chora pouco, silencia e vai embora. Depois de uma caixa de droga comprada com receita médica. Ela vai e então penso que nunca mais vai voltar. Rá, doce ilusão deste coração!

22 mulher obrigada

A dor volta. E volta. E volta. E retorna à sua casa. E ocupa seu espaço, enxerga por cima do muro do vizinho, apanha jabuticaba, nutre a horta, faz morada. Anseia pela liberdade!

Quem anseia pela liberdade senão eu, humano mortal, repleto de buracos e culpas? Liberdade que ela tenta me trazer… num embrulho de presente vermelho, fita de laço dourada e bela carta escrita à mão junto ao estado. Limitação. Eis que está nesta palavra minha capacidade de acolher tanta dor e com ela envelhecer.

(dias destes minha filha me perguntou se estava crescendo. Eu parei, olhei para a ansiedade que havia dentro dela e falei que ela está envelhecendo. Que todos envelhecemos dia a dia, desde o minuto que surgimos como humanos no útero de nossas mães)

De minuto a outro, como que num abraço de tia querida, vejo a dor com sorriso melado me olhando de lado… trincheira que quer ceder, lágrima que quer cair, olhar que só quer bailar na emoção do puro da vida provar.

A nós cabe tudo, dores, feridas e a capacidade de receber tão profunda dor como fruto que amadurece. No seu tempo, sem tempo certo. Então cada vez que ela chega retiro as expectativas de com ela me acertar e me entrego a toda intensidade que me cabe. Chego ao meu ponto, me abraço e me quero novamente.

29 mulher deleite escorpiano

 

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