Ana, Antônio e o filho

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Esta é a Ana. Ana tem um filho de quase dois anos que não vai para a escola. Ele também não sabe o que é ficar chorando até dormir e muito menos o que é ser forçado a comer. Ana tem um respeito acolhedor com seu filho por acreditar que tudo é muito novo quando se trata de uma nova vida, vida nova, vida de bebê.

O marido de Ana é o Antônio e ele também tem um filho – o mesmo filho que Ana. Antônio sempre foi muito apaixonado por Ana e inúmeros planos os dois traçaram rumo ao mundo. Até que Ana pariu o filho dos dois e então eles passaram a ser três – sem dúvidas nas contas.

Este triângulo amoroso tem três lados que não se encontram todos os dias e em muitos dos minutos se bicam como pássaros bravos à espreita do ninho. São mesmo. Todos são animais. Um mais que o outro para algumas questões como, por exemplo, Antônio ser carnívoro e Ana comer ramos de alface. O filho permeia a briga, mas Ana acredita que consumir carne deve ser algo muito além da quantidade de proteínas a colocar boca a dentro.

Antônio e Ana até hoje entram em mundos opostos quando seus polêmicos assuntos surgem nos armários da cozinha, pela sala a fora, na varanda quente, ar condicionado pra dormir?

O que estes dois, o casal, talvez demore a perceber é que estão tão juntos que seus espinhos cutucam a pele alheia vez ou outra. É sinônimo de vida tudo isso. Falar, discutir (que seja), nutrir as diferenças de modo que o filho (ele existe, galera!) sinta que o cotidiano é tão prazerosamente discutível como a política, o dinheiro ou a indecisão entre praia e campo (praia!).

Estar o tempo todo do tempo cuidando para não haver um tom de voz diferente na frente do filho é algo tão escapável pelas mãos que não vale o esforço. Quanto mais reais, mais humanos que somos, mais pés no chão e coração pulsando, mais aprendizado a passar sem precisar ensinar – o filho só faz é sentir. E sentir, aqui neste casal, é tudo!

Ana e Antônio mantém distância da perfeição que não têm e o filho dos dois é uma piada que não precisa ser escrita. Cheio de uma criança que o mundo não levará embora. Cheio de uma vontade que a preguiça começará a dar risada com ele. Ele é filho do casal, mas antes de qualquer coisa, ele é ele. Ana e Antônio acreditam nele não por ser um fofo, mas por ser aquele passarinho com a boca aberta no ninho.

Esse casal quer ter mais filhos, mas não está nada preocupado com o tempo que seus amigos dizem que está passando rápido demais. “O tempo passa no seu tempo”, sempre diz Antônio aos mais pentelhos (mesmo que adultos).

E, todos os dias antes de na cama relaxarem os corpos fadigados de uma intensa rotina de fraldas, relatórios, choros e mamás, eles se nutrem da sua vida assim: normalzinha perante a perfeição que se é ter um filho e ser um casal.

 

Esta semana a Marcela, do Blog Canjica, publicou um texto que me inspirou a escrever esta história do casal Ana e Antônio. Marcela, com seu refinado papo reto, falou sobre os filhos que salvam casamentos (ou nada disso).

Aqui na nossa casa ninguém salvou ninguém até hoje e todos se salvam todos os dias \0/

Colocar esta responsabilidade nas mãos de um filho é pedir para que a frustração faça companhia PARA O RESTO DAS VIDAS.

 

 

 

 

 

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CRÔNICA: As lembranças de meus velhos professores


Aquele prédio todo antigo, localizado logo à frente da Praça Pedro de Alcântara Magalhães, lá em Muzambinho, guarda praticamente todos os meus sonhos. Foi lá que aprendi a dividir e a doar um cadinho da minha paciência, um tantão da minha solicitude e, mais ainda, aprendi a respeitar àqueles que fizeram brotar em mim a sementinha do amor pela escrita. Era o Cesário Coimbra, Escola Estadual nascida em 1910 e que acolhe, até hoje, alunos da cidade e região. 

B + A = BA

Dona Petronília tinha os cabelos negros como os das pombas que teimavam em assaltar nossas lancheiras quando o recreio era uma festa promovida no jardim de cara para a escola. Aquele misterioso lugar escondia desde peixinhos imaginários na bela fonte datada de 1910 até armas dos coronéis no Coreto gigante para pequeninos olhos de criança.

E Dona Petronília era calma, atenciosa, me levava a crer que a vida poderia caber na palma da minha mão direita e todo conhecimento que ela amava transmitir, ficaria guardadinho na palma da mão esquerda com imensa facilidade de acesso. Parece que a mágica deu certo. A querida professora do pré-primário – eu tinha já meus 7 anos de idade e até então não havia entrado em nenhuma escolinha – conduzia suas aulas com desenhos, macarrão, papelão, tampa de latinha, garrafa pet, giz de cera, lápis de cor, palitos de sorvete e, naquela cartolina que parecia do tamanho do mundo, íamos completando nossas visões de um certo tema.


Eu gostava mesmo era de Português… viajava pelas linhas das redações ainda sem muito conteúdo. Mas ela me incentivava! Peguei as letras aprendidas e guardei aqui com muito egoísmo. Hoje as coleciono como quem tem álbuns de figurinhas.

E foi então que naquele prédio todo lindo e rebuscado de história os anos passaram e então era a hora de subir de andar. Nossa, me sentia uma mulher feita quando meus cadernos ganharam pautas e eu já podia utilizar as canetas estereográficas.

Agora a missão era com a Dona Mafalda. Confesso que esta marcou na medida certa com seu ar de professora das antigas. Impunha respeito até daqueles colegas que mais queriam pular de carteira a carteira. Dona Mafalda pintou em mim a competição saudável. Naquele quadro-negro-verde ela fazia arte com sua letra impecável. Começava a matéria escrevendo do lado esquerdo e ia percorrendo como quem quer conhecer o mundo pelo mapa. E eu copiava tudo, era rápida. Não tão rápida como a Priscila, uma de minhas melhores amigas da infância.

Penso que a sala devia ser composta por uns 45 alunos, de tão cheia. E cada dia era uma surpresa, um conhecimento, uma geografia que nos levava e uma matemática que nos somava.

Ah, quando passei para o 3º ano do grupo eu era ainda mais importante. Tinha duas professoras: Dona Ana e Dona Cleonice. Dona Ana parecia aquelas mães boazinhas que deseja só ensinar para o filho aprender. Minhas lembranças falham ao delimitar quais eram as disciplinas que cada uma ministrava. Mas sei muito bem que Dona Cleonice era professora de Português, meu querido amigo. E foi ela mais uma escada rumo aos meus 18 anos e a difícil decisão imposta por decidir que profissão seguiria. Uma criança escolhendo seu caminho…

O dia mais importante da minha vida escolar foi quando eu saí do “Grupo” para estudar na Escola Estadual Professor Salatiel de Almeida. Pomposa por estar situada bem no meio da Avenida – a única – da cidade mineira.

Aulas de Geografia com a tia Ina, de Português com a minha mãe, de Biologia com o excelente João Mamede. A biblioteca desta escola parecia um museu. Por lá eu ficava durante o intervalo – não era mais recreio. Alugava algum livro e partia rumo à minha imaginação lendo toda a coleção Vagalume e tantos outros títulos.

Do estadual para o particular com bolsa quase integral. E lá foi mágico… a estrutura da escola era coisa de cidade grande, os velhos livros foram passados pra frente e tínhamos apostilas para cada matéria, tudo colorido e com interação com o aluno. Eu fiquei encantada.

E penso que aproveitei a oportunidade. Lá conheci pessoas que me fizeram pensar além da menina do “Grupo”. Minha consciência começava a brotar mais firme e minhas ideias eram todas passadas para o papel e, às sextas-feiras, aula de Redação com Dona Regina. Suspiro neste momento com grande saudosismo. Esta senhora que é uma menina, destacou os pontos fortes do meu texto, rascunhou os menos interessantes e, por alguns anos, fomos lapidando meu estilo.

Aulas de Matemática com a tia Delze, uma mestra. Geografia com o Antonio Carlos era uma festa do descobrimento e a História da Mara… ah, Mara, quantas histórias fiquei sabendo durante nossas aulas. Amadurecimento constante. Biologia era dividida entre o temeroso Tonzé e o querido Usaldo. Química era ensinada aos gritos equilibrados do Pedrão, aquele que me deixava de castigo junto aos meus primos Gustavo e Felipe só porque falávamos demais durante suas aulas. Ufa, aquele cantinho no tablado e atrás da cortina era tenso. Bullying? Que era isso…

E então eu era conduzida pelo mundo mágico da Literatura com um dos meus grandes exemplos de ser: Fábio. Fábio não dava aula, fazia teatro. Fábio não falava, encantava. Fábio não menosprezava, enxergava potenciais. Este professor fazia meus olhinhos brilharem a cada novo conto, a cada nova era da nossa literatura. Lembro muito bem, entre tantas outras, da aula sobre a Semana de Arte Moderna. Ele não sabe ainda, mas o melhor presente que ele me deixou foi minha amizade com Clarice, a Lispector. O livro era A hora da estrela e assim como Macabéia eu sonhava… e derramava lágrimas a cada nova descoberta.

Meus velhos professores se renovam constantemente dentro do rebuliço desta nova era. Eles estão guardados aqui no cantinho que expande a cada dia. Expande nas buscas, nas revoltas, nas pretensões.

Penso que essa molecada de hoje em dia ainda vai encontrar nos seus mestres seus futuros. Educação… nada mais importa tanto na essência de ser.

Meus velhos sempre jovens, a vocês meu pleno respeito e minhas humildes palavras. Do passado, vocês me deram meu hoje!
Da eterna aluna,

Marília Gabriela Viana
Fotos por Thadeu Varoni (http://thadeuvaroni.blogspot.com.br/2010/10/muzambinho.html)

Essa é a minha birra: me respeitar!

Eu poderia passar horas falando (escrevendo) sobre as dificuldades de se ter um filho. Longe das ideologias, distante dos comerciais, nem perto dos filmes e mais mais mais abstrato ainda que ao lado de outras mães.Para não entrar na roda da cobrança (quase sempre desnecessária), fujo para meu abrigo de luz interior que deixa meu instinto seguir leve e pesado, leve e pesado, leve e pesado… mas é meu!

Hoje minha filha está com um ano e oito meses. Eu não parei de trabalhar por ela, já havia deixado para trás o que “não” era meu trabalho. Não estou em casa só para cuidar da minha filha: acredito na educação como forma de transformação social. Se eu não educo, procurarei uma escola para poder cobrar a educação dela no futuro? Não… não sem antes eu e ela termos vivido um tempo de descobertas (que sim, sei que serão eternas, ainda bem!), de respeito, de visualização do mundo, das pessoas, das necessidades, da doação, do perdão, do recebimento, do pedido. Ela pede ajuda. Ele oferece seu pão. Ela diz “é meu” com propriedade para eu entender e respeitar – não, não acho que ela seja egoísta por isso, ok? Ela é saudosista. Ela faz bico, se joga no chão quando sente que algo não está legal pra ela. Ela me olha nos olhos quando digo “Filha, deixa a mamãe te falar uma coisa”. Ela não dorme à noite toda, mama muito e acorda dizendo “oi mamãe, oi papai!” numa alegria que o que passou foi apagado. Quando estou com um bebê nos braços, muitas vezes ela chega querendo meu colo e isso não é “ciúmes”, é sobrevivência. Ela não precisa aprender a dividir assim, falado. Ela vai aprender sentindo. 

Eu trabalho nos cochilos dela. Ela dorme enquanto eu trabalho. Agora, estou assumindo mais compromissos e ela vai junto ao nosso espaço de coworking. Lá ela brinca e eu trabalho. Às vezes vou mesmo mais pra tomar um café e vê-la solta na areia ou correndo atrás do Filo, seu amigo coelho. 

Haja fôlego pra nós, mães! 

Haja fôlego pra eles, filhos!

Esquece esse negócio de “ô vida fácil, hein filho?!”. Nada é fácil quando tudo é novo. Nada é tranquilo quando estamos nervosas, cansadas e preocupadas. Eles sentem. Sabem melhor que nós e tentam nos mostrar com seus choros sem motivos e apetite quase zero. 

Não por isso serei eu a mãe querida pela família e sociedade. Essa é a minha birra: me respeitar!


@assimsimples