Aqui temos um pai, que amamos!

divulga pai

Ele não nasceu junto com a minha filha e muito menos na primeira troca de fralda. Ele chorou quando a pegou pela primeira vez nos braços e me olhou com força nos olhos como quem diz: “Estou aqui”. Foi nesta mão que eu agarrei com a mesma força do seu olhar.

Mas ele não nasceu ali, no meu parto. Não de elo e coração. Sim de instinto. E olha, isso não tem problema algum e eu só percebi agora, um ano e meio após nossa filha abrir os olhos aqui fora.

E vejo muito esta cobrança sem fundamento, sem olhar dentro, apenas almejando a cúpula perfeita de uma família.

Pai nasce aos poucos. Ele vai chegando ao mundo num desespero tamanho ao do filho. Ele chora por dentro – ainda não consegue chorar pra fora. Ele faz coco na fralda, ele quer mamar no peito, ele olha pra mãe pedindo colo de uma mãe que já teve. Pai de seu primeiro filho não estaciona o carro pra esperar o arroto e vai trabalhar depois dos cinco dias de licença paternidade. Isso é de uma tremenda crueldade… Todo aquele cafofo do quarto que ainda cheira à verniz, o café coado às pressas toda manhã, um esforço danado pra chegar em casa após o dia cheio e, ufa, sentar-se à mesa para jantar acompanhando toda a complexidade natural da introdução alimentar.

Ele não está ali o tempo todo. Presencia alguns poucos momentos cruciais e nós, mães, vamos maquiando toda esta falta. Vamos nos agarrando aos pés que pisam como nós e encontramos maneiras de peneirar a tristeza da ausência que pra eles também aperta o peito. Peito que vaza um leite sem pressa.

Nesta pressa toda o pai aqui de casa sofreu uma pressão enorme da mãe que me tornei. Eu sabia como minha filha queria que a segurasse nos braços, eu sabia como a embalar para dormir, eu sabia os momentos de água, os bocejos por respirar ar puro. Eu sei até hoje, claro. Mas queria tanto que ele soubesse… Me diga como?

Armei uma barraca super-protetora e nos coloquei lá dentro, eu e minha bebê. O pai chegava “sujo” da rua. Trazia com ele o estresse do colega, o pneu furado e eu estava ali, naquele mar de rosas sentindo e conhecendo profundamente um ser que era todo meu. Queria tanto que fosse dele também… Me diga como?

E sem culpa, abro meus olhos para reconhecer como é bom e como tudo tem seu tempo de ser. Só agora ele é pra mim o pai que sempre quis que fosse pra ela. Ele nunca foi perfeito, nunca será, mas que perfeição é essa? Quem ditou as regras mesmo? Nós nem assistimos à televisão e nossos filmes são tão realistas de dramáticos. Tirei tudo de alguma novela que chegou ao seu capítulo final! Melhor que isso? Não tem mocinha beijando o galã, não tem casamento no altar com véu quilométrico e muito menos família almoçando embaixo de uma linda árvore tomando coca-cola. Sabe o que tem aqui em casa?

Ah… Tem pai cansado se desdobrando, tem pai ninando boneca do tamanho do seu dedo do pé, tem pai olhando nos olhos pra falar com a filha, tem pai bravo, tem pai que canta musiquinha infantil sem saber que sabe cantar, tem pai colocando o sutiã da mãe pra filha sorrir, tem pai jogando bola e tirando fina da decoração da casa, tem pai fazendo jantar, pai trazendo vinho pra mãe, pai cozinhando milho, comendo resto de feijão e suando até o bigode ao fazer a bebê dormir. Tem um pai do jeitinho que consegue ser. Nem mais, nem menos. Só na espreita pelos detalhes que pega no ar do seu auto-conhecimento.

Isso nem tem nome. Nem digo que aqui tem um “pai real”. Aqui temos um pai, que amamos.

 

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2 pensamentos sobre “Aqui temos um pai, que amamos!

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