saiu lá no Canjica: VA GI NA

Tive um parto natural em casa. Isso há um ano e (quase) seis meses. Nossa, minha filha já tem quase um ano e meio, senhor! Bom, mas o que sempre querem saber é sobre minha vagina… Tadica, tão querida, mas tão reprimida.

Então a Marcela, do blog sucesso Canjica, me perguntou sobre essa questão e escrevi um depoimento bem sincero. Ela somou com dados e está aqui: nossa contribuição para as vaginas amadas desta vida 🙂

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Dificilmente a vagina continua exatamente igual após o parto. Isso não significa que ela fica larga, frouxa ou qualquer uma dessas bobagens, mas sim diferente. A verdade é que a gravidez muda nosso corpo, independentemente da via de parto. É um baita peso lá embaixo, órgãos apertados, pele que estica. Aceitar essa transformação é o primeiro passo para fugir da loucura que é tentar acompanhar os padrões.

A mídia nos mostra Déboras e Giseles trincadas em dez dias. A visita diz que sua barriga já diminuiu, como se esse fosse o melhor elogio do mundo, como se, com um recém-nascido nos braços, essa deveria ser uma preocupação. Os comentários sobre aparência e forma física são constantes para todas nós, mas, se você teve um parto normal, o que todos querem saber e poucos tem coragem de perguntar é: como está a sua vagina?

No parto natural o bebê atravessa o canal vaginal, é sabido. Nosso corpo é preparado para isso, mas é claro que pode causar impacto, especialmente no primeiro filho. Se você conhece bem o seu corpo, já analisou a sua vagina com um espelho e tem intimidade com ela, vai perceber mais mudanças. Algumas mulheres não notam absolutamente nada. Outras sabem que algo mudou, mas não conseguem identificar o que. Talvez apenas a percepção de si.

Como se não bastasse a rave de hormônios, o pós-parto também é momento de reconstruir nossa relação com o corpo. Assim como ele não fica igual após uma cirurgia (como a cesárea), ele não é o mesmo após um parto natural. Uma estria pode surgir no umbigo. Um corte na barriga pode infeccionar, dar queloide. Um ombrinho que passa com força pode lacerar o períneo. São as marcas da vida. O tempo cicatriza toda e qualquer ferida, mas a aceitação acelera o processo.

Para lhes presentear com doçura e compreensão, compartilho a experiência da Marília Gabriela, amiga querida do @Assim, sobre a laceração em sua vagina. Sim, vagina! Todas temos e podemos falar sobre ela. Próximo passo: como fica o sexo? Aguardem! 😉

Marcela Feriani * Canjica

“Laceração passava longe das minhas questões durante a gravidez. “Nada importante”, eu pensava. Até que ela chegou à minha vagina e então toda aquela distância ficou perto, muito perto de uma impotência e desconhecimento gigantes.

Durou pouco esse turbilhão. Logo me reconheci com aquela costurinha no períneo. Mas foi intenso, foi profundo, foi dolorido pra caramba e, mais que tudo, foi feminino. Senti várias interferências vindas da minha laceração. De primeiro foi só amor pelo meu bebê. Meus olhos não enxergavam minha vagina assim, de cara. Ela ficava lá, quietinha nas partes baixas e eu, quietinha nas partes altas amamentando.

Todo aquele calor que passou pela minha pelve no momento que minha filha viu à luz, não me rasgou no físico apenas. Desconstruiu a imagem, construindo o meu ideal. Eu pari assim. Naturalmente, na sala de casa, sentada, totalmente introspectiva, ligada a sensações muito mais prazerosas que um corte no períneo. E eu juro que isso tudo fez parte do meu parto, do meu pós-parto e hoje é como um livro que vez ou outra pego da estante da mente para lamber as páginas. Sim, foi animal.

Já assisti a vários partos de vacas no pasto. Algumas tinham seus bebês arrancados pelos camaradas da roça, outras faziam movimentos sutis de quadril e pronto, os bezerros nasciam. Caiam ali mesmo, no mato. A mãe lambia aquilo tudo, comia a placenta, deitava logo depois e, ainda com as pernas bambas, a cria chegava, aconchegava em suas tetas cheias.

Coloquei aqui essa metáfora, pois a delicadeza de um períneo lacerado pela cria é animal. Coube para mim a sensação não comprada e nada querida. Eu pari da minha maneira, e meu corpo falou.
Depois, eu conversei bastante com meu períneo. Por dias até os pontos caírem. Ouço muito: “Ah, mas eu nem precisava dar pontos. Deu por precaução”. E, veja bem, ouça: nada tem de importante na quantidade de linha que sua parteira vai usar em você. Pouca ou muita. O períneo é seu e quem conversará com ele intimamente por dias (e tomara que por toda a vida), é você.

No meu caso, Rafael foi meu curandeiro. Cuidei de mim e ele mais ainda. Voltava para casa todos os dias no horário de almoço para secar com o secador de cabelos, borrifar chá de camomila geladinho, preparar o absorvente com ervas calmantes, me dar um beijo e dizer “Sua vagina está linda”- mesmo eu duvidando tremendamente e não querendo olhar pra ela. Só a sentia. Passada a mão lentamente e sentia um elevado que antes não tinha ali.

Minha filha mamava sem tempo e lembro da sensação de que tudo ia cair quando eu me sentasse ou me levantasse. Era uma pressão lá embaixo! Isso por alguns dias e foi amenizando no passo da minha sensação de fazer aquele corpo estranho pertencente. Quando vi, era tudo meu! E isso foi ótimo.

Lembro, também, da dor que passou raspando em mim… Era algo como a tal impotência que citei lá na primeira linha. Senti muita indignação e queria sair contando pro mundo todo que tudo bem ter uma laceração no parto, que ela é sua, seu corpo, suas mãos te conhecendo. Queria dizer que o mistério que senti ao ouvir mulheres falando baixinho das suas vaginas, era algo que podemos gritar mesmo. Homens falam de seus pintos tão abertamente, não é mesmo? E sei lá, nem pelos homens. Por nós mesmo, mulheres que parimos. Que sentimos o chamado ancestral de hurrar como leoas, avós e termos ao lado parteiras segurando com os olhos.

Ainda existe algo muito sutil que nos separa de nós mesmas. Algo que buscamos em sites e vidas perfeitas da internet. Algo que nos distancia da dor, do luto, do peito rachado, da vagina caindo pela casa. Do sangue, do lençol manchado, da teta inchada. Todos nos dizem. E ninguém nos respeita. E isso dói, pois queremos dizer, mas naquele momento de fundo do mar que é o puerpério, a voz sufoca.
Não existe dica de “isso ou aquilo”, mas troca. Viva a troca, a mão no ombro, o chá calmante e o bom repouso. Viva o respeito pelo nosso corpo, que sabe muito bem o que faz.

Obs: os exercícios para fortalecimento de períneo recomendados durante a gestação são ótimos. Não fiz nenhum. Mas pegue-se a eles como você tendo uma conversa com seu corpo, não apenas você fazendo com o fim único de não se lacerar. Vamos sair dessa corrente social da culpa, da expectativa ideal. Calma, respira… Está tudo bem e vai ficar tudo ótimo. Confia!”

Marília Gabriela * Assim

Se quiser ver do que nosso corpo é capaz, dê uma boa olhada nessas fotos (não clique se mulheres nuas trazendo pessoas ao mundo te incomodam): http://www.paulapoltronix.com/#!partos/cwvn

 

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Imagem: Elisa Riemer

 

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