Deixamos Julieta em casa para assistir à Julieta no cinema

Há uns dias – assim, mais salientes –, venho querido sentir meus sentimentos de antes, vestir minhas roupas de ontem, saltos no frio e ter as mãos livres para pegar nas dele. E quero isso sem culpa, o que tem me feito bem. Quero como casais de namorados apaixonados que esperam o final de semana para despir-se. Eu quero mesmo é só despir-me da mãe, ou do papel da mãe que me domina da cabeça aos pés – que eu amo e que me ama, mas que sufoca.

E sem plano algum, o planejamento tomou forma e pronto, teríamos nosso primeiro encontro após o nascimento da nossa filha. Julieta.

Estava eu lá, sentada no sofá macio da nossa sala, saboreando uma bacia de pipoca que explodia como estrela e descia como cadente em mim, sozinha, numa noite agradável e com uma taça de vinho querido tinto nas mãos. Estava lá sem expectativas, de nada. O filme era francês e era comédia. Eu dava risada e tomava as entrelinhas em goladas saborosas que só um bom parisiense (com todo respeito), sabe entorpecer. Então, numa mexida leve no sofá, tela preta de final de película, aparece uma loura linda, cabelos minúsculos e batom vermelho – claro. As micro-cenas eram curtas (sim), fixaram meus olhos. Na hora pensei que veria aquele filme que foi ali me apresentado como trailer. Então na tela: “Almodóvar”. Então o nome do filme: “Julieta”.

Sorri com meus olhos, com minha boca, com meu corpo todo. Dancei no chuveiro e me permiti todo exagero de alguém que tem algo com o diretor a mais que só apreciação de enredos, cores, bocas e sexos. Sempre dei permissão a ele que entrasse em mim. Almodóvar, desde que vim morar em Campinas, escreveu roteiros para meus passos e eu vesti suas roupas sem apego, deixando a leveza da intensidade dominar, me dominar. A dramaticidade nos permeia num bailar constante de américa envolvente. Ele lá, eu cá, eu cá vivendo como ele enxerga a vida lá.

Bom, mas ele me amarrou de novo em suas pernas, me deixou sem ar, me tirou os pés do chão, me fez pintar os cabelos de negro, os lábios de vermelho sangue e colocar meias que me deixam mulher, mais. E isso foi ontem. No dia que decidimos jantar fora sozinhos, pela primeira vez em um ano e cinco meses.

O dia passou leve, numa brisa. Ora ou outra eu dizia à minha filha que naquela noite ela dormiria com a dindinha e que mamãe e papai sairiam para jantar. E ela respondia: “Vinho?”. “Sim, amor, vamos tomar vinho”, eu completava.

Foi uma garrafa num piscar de olhos. Vinho português que aqueceu e amoleceu dois seres que se encantaram com suas presenças.

“Você está linda, radiante!”, dizia ele.

Com os olhos eu afirmava que estava linda sim, sabia que de dentro de mim saiam raios de uma alegria inenarrável. Duplamente feliz: minha filha estava em casa e dormiria (pela primeira vez), longe da teta e, depois do jantar tranquilo (sem correrias, comidas voadoras e muita paciência), rumaríamos à sala 3.

Deixamos Julieta em casa para assistir à Julieta no cinema.

Não acho que é o filme mais suave de Almodóvar. Ou talvez seja, mas para olhos que enxergam cenas. Para olhos que pegam o ódio que existe no amor, é um filme terapêutico. Difícil. Alucinógeno, foi pra mim.

Fiquei horas após o fim recordando minha última carta escrita ao meu diretor contando sobre meus dias, nova rotina, amamentação livre e constante, alegria ao dormir, vontade de sumir. Falava a ele das confusões mentais, do estresse corporal, do prazer carnal. Dizia sobre o riso dela, como ela se parecia comigo, das minhas culpas, dos retratos da infância, dos quereres sumir do passado, das mortes diárias. Falei tudo isso a ele em palavras longas.

Ele me entendeu do inicio ao nunca fim. Almodóvar me abraçou à distância com a tradução mais fiel e intensa sobre tudo que relatei, na forma de um filme. Eu disse a ele que ela tinha nome de amor dele: era Julieta, minha menina. Ele encantou-se.

Com toda suavidade perceptiva fiquei a encarar-me no espelho desejando por mais encontros, cinemas, vinhos, dindas para ninar, Julieta para me orgulhar.

Como noutras vidas vividas nesta mesma, ontem fechamos um ciclo. Hoje pisamos mais leves em casa, acordamos meio congestionados, pois o corpo quer se limpar. Estamos aqui. Falando baixo (como ele) para escutar/entender/sentir/deixar ir a morte do que éramos ontem.

Foi lindo!

 

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