reportagem: Corpo, mente e… amor!

O sol está indo pelo horizonte, penso em acalmar a ansiedade do dia e eis que não tenho sossego. Nem deu tempo de olhar pela janela e lá está a mensagem dele incentivando minha falta de prática: “Ei, aluna, amanhã as 7h30. Hein?”.

Penso em “Ah, vou dizer que não vi a mensagem”, ou mais “Professor, me deu um jeito no joelho…”. Mas o compromisso somado ao estilo de vida do Diego não me deixam fugir. Eis que respondo “Opa, combinado!”. 

Então, quando pra mim ainda é madrugada acordar as seis e um cadinho, pra ele já é quase meio dia. Neste tempo ele já deu aula para o seu primeiro aluno e me espera para mais uma hora. Nesta hora, percebo a dedicação voluntária e que a vontade de transformar o meu corpo não é só minha. Então, adeus preguiça do dia anterior e vem que vem massa magra! #projetogordinha #2050tochegando

Começo de ano você já sabe, né? Promessas e boas intenções são quase como a roupa branca para virada da meia noite. Foi então que fechei um plano de doze meses na academia SCM, em Sousas. Passei o cartão com a maior certeza do mundo de que estava apta a acrescentar mais tempo saudável aos meus novinhos em folha, 365 dias. Então comprei algumas roupas de ginástica, ganhei de presente um tênis lindo e lá fui eu. Os instrutores da academia logo me passaram uma ficha de treino. Mas eu sou meio inquieta… Vi, de rabo de olho, um colega de malhação acompanhado por um Personal Trainer. Hum… pensei comigo em dar uma espiculada, conferir os valores e tudo o mais.

O papo foi rápido e na segunda-feira da próxima semana eu já estava fazendo uma aula-teste. Pronto, fechamos o pacote mensal com três aulas por semana e, pouco a pouco, fui conhecendo o tal do meu professor.

Diego Meneghetti, nasceu em Campinas no ano de 1982 e por aqui ficou. Em 2004 entrou para a faculdade de Educação Física da PUC-Campinas e quatro anos mais tarde pegou o diploma que lhe daria qualificação para ser o que ele sempre foi: um apaixonado pelos esportes. E sim, esportes no plural mesmo.

“A rotina esportiva esteve sempre tão presente na minha vida, desde muito cedo, que não consigo me lembrar de um ‘início’, apenas que sempre foi assim”, contou Diego que hoje prioriza o papel de Personal Trainer na sua rotina. Esse elo entre o professor e o esporte foi o que o fez ter certeza da profissão que seguiria pela vida a fora.

Entre uma academia e outra para ministrar suas aulas como Personal, Diego faz questão de encaixar com regularidade na sua rotina aquela boa partida de futebol com os amigos e também treinar lutas. “Já fiz de tudo um pouco quando o assunto é esporte. E hoje seleciono algumas modalidades que se encaixam mais com o meu perfil como, por exemplo, minha luta favorita que é o Jiu-Jitsu. Além de um pouco de Boxe”, disse o professor.

Meio a toda essa vontade e atenção aos hábitos saudáveis, está uma outra transbordante paixão: a Fabi. Também digo que não tem como não gostar dessa figura em forma de menina doce e sorridente. Sempre disposta, ligada numa tomada da vida sem limites de energia. Diego conheceu a Fabi ainda na faculdade, mas o destino se incumbiu de juntar essas almas pulsantes anos mais tarde, em 2011.

Fabi e Diego com amigos

Fabi e Diego com amigos

Fabiana Freitas também é campineira e, assim com seu namorado, amigo e companheiro Diego, cursou Educação Física para se profissionalizar fazendo o que ama: práticas esportivas. Hoje a menina/mulher de 31 anos é Professora e Coordenadora de Ginástica da Academia SCM, Instrutora de Pilates, se desdobra para dar aulas de Personal Trainer e ainda arrasta um batalhão de empolgadas alunas durantes todas as suas aulas. Que pique é esse Fabi? Ela começa as 6h da manhã e sabe-se lá quando é que a pilha acaba! 

O casal, que ganha não apenas novos adeptos de uma rotina saudável, mas também amigos para a vida toda, é um exemplo de perseverança e determinação na busca por aperfeiçoamento assim como a própria profissão. E a definição de Educação Física está intimamente ligada aos objetivos dessa união que cativa: uma batalha constante de conhecimento e controle do físico que é capaz de invadir o estado da mente. Assim então o ciclo se completa, se expande para além de um corpo saudável.

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Olha o casal aí durante uma das aulas na Academia SCM


 

Fui buscar alguns dados nos Parâmetros Curriculares Nacionais – conhecidos como PCNs, que são estabelecidos pelo Ministério da Educação, e pude sorrir ao ler que, “A regra é clara”, como diria nosso caro Arnaldo, quanto ao primordial valor que devemos priorizar ao estudo não apenas corporal, mas estendendo à reflexões culturais e políticas de como nós e os diversos povos pelo mundo lidam com esse instrumento em comum: o corpo humano.

Ou seja, um Educador Físico tem o papel de não apenas escancarar os músculos e liga-los a exercícios que os fortaleçam, mas também de fomentar a discussão da compreensão do indivíduo, da sua cultura e de outras culturas, a fim de efetivar seu objetivo como um componente curricular educacional.

Eu diria mais. Diria que esse currículo em sala de aula, como traçam os PCNs, necessita virar uma prática, sair do papel. O Educador Físico, que agrega durante sua carreira inúmeras outras qualificações, é um dos responsáveis pelo cumprimento do currículo da vida dos cidadãos. Currículo esse que está em constante evolução!

E aí, meio à pessoas que buscam a qualidade de vida e a combater males como o sedentarismo, por exemplo, estão Diego e Fabi como pontes entre objetivos e cumprimento destas mudanças. Eles estão também, de acordo com dados do Confef – Conselho Federal de Educação Física – entre os 324.403 educadores físicos registrados no Brasil. Número este que saltou 24% nos últimos três anos devido à lenta, porém constante, mudança cultural do nosso país.

E os números continuam crescendo: o percentual de pessoas que praticam atividades físicas durante o tempo livre – aquela horinha do dia para você, sabe? – passou de 30,3% para 33,8% nos últimos cinco anos (2009 a 2013). Estes números foram revelados pelo Ministério da Saúde e vêm de uma pesquisa realizada pela Vigitel 2013 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônica) apontando que este aumento representa 11% a mais de brasileiros praticantes de algum tipo de atividade física.

“De fato sentimos que as pessoas estão se preocupando mais com a saúde física e mental. Mesmo assim, os números estão longe de serem os perfeitos e falta muito para sermos uma população saudável”, opinou Diego que acompanha na prática o que os números muitas vezes apenas rabiscam papeis. Ele ainda salienta que praticar exercícios sem orientação profissional é uma via perigosa, já que cada pessoa tem um metabolismo, uma estrutura óssea, um tempo de resposta e suas limitações pessoais. “Por isso reforço a importância do Personal Trainer e de instrutores muito bem preparados nas academias. Além de acompanhamento nutricional”, alerta Diego. O professor ainda destacou sobre a importância de uma boa alimentação para que os resultados sejam de fato duradouros e educacionais.

A suadeira compartilhada!

Uma vez li um artigo por aí que dizia que treino de verdade era aquele que o aluno saia da academia pingando suor. Fiquei feliz por completo, pois até parada em casa minhas glândulas sudoríparas ficam falando sozinhas. Mas independente desta relação com a transpiração ser de fato verídica, a suadeira de uma aula de Personal começa muito antes do aluno chegar. O professor, o Diego no nosso caso, transpira o tempo todo! E é essa transpiração em forma de energia, vontade, força, curiosidade, ansiedade, buscas e várias outras motivações que fazem um profissional se destacar. Que fizeram o trabalho do Diego se destacar na minha concepção de saúde e bem-estar.

E, claro, contemplando estas estatísticas e percepções, está a Fabi. A Fabi em forma de amor. E este talvez seja o ingrediente fundamental para a fluidez de duas carreiras em plena ascensão.

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Ah, antes que eu me esqueça: feliz dia dos namorados ao casal 🙂


 

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CRÔNICA: O bom da memória é o cheiro!

Drummond implorava por anúncios, textos, bigornas, bigodes feitos, pernas bonitas, bancos de praça, sorvete na calça, óculos limpos, pipoca após a missa!

Drummond implorava aos cantos por contos que o fizesse enxergar quão maravilhosa era sua terra que mais cheirava orvalho das montanhas que o cercavam.

Minas Gerais!

Todas as manhãs o café era quente para contrastar com a água gelada que escorria minguada pelo cano meia boca da torneira do banheiro vermelho. O rosto até trincava!

Mas minha mãe dizia para lavar o amanhecido e tirar as rugas da noite. E que noite fria!

Chega a doer a espinha somente de lembrar… Ai! Que frio. Pior que frio na barriga quando sentia medo… Bem pior!

A roupa então era posta sobre a cama arrumada e ia diretamente para o corpo que tentava se esconder do ventinho que passava pelas frestas da janela de madeira azul. E que azul! Tão belo quanto meu pássaro Sanhaço. Morreu. Comeu batata crua.

Então me esperavam sentados com os pés encolhidos: mamãe Maria, papai Torquato, irmão Bael, irmã Paloma e o fiel Snoopy. O cão de todas as horas e verdadeiro comedor de galinhas frescas que piavam pelos canteiros da horta.

Ah, ainda não te contei! Morávamos em uma chácara. A Chácara São Camilo, onde os visitantes tentavam se encorajar para fisgar um peixe enquanto eu mais meus irmãos já havíamos enchido um barril de tilápias!

Então era hora de limpar os cantos da boca com o pedaço do toalhado florido da mesa. Minha mãe sempre fora romântica por demais. Nossas camas eram banhadas de enxovais brancos com florais estampados, as cortinas, as almofadas e toda a decoração de casa levava uma pétala de rosa que fosse. Vai ver por isso hoje não levo o romantismo à frente…

Mas voltando ao claro passado.

O carro se transformava todos os meses. A situação em casa era boa. Farta! Íamos à praia ao menos uma vez ao ano. “Ubatuba, aí vamos nós!”. Felizes da vida.

As vacas da chácara eram gordas e enchiam os latões com seus leites brancos e untuosos como elas somente.

Neste dia meu pai dirigia um FIAT 147, bege, bancos de couro e até com teto solar. Em época de Copa do Mundo o 147 bombava de crianças saltando pelo teto! Estampávamos sorrisos de vitória e demonstrávamos a situação que o país se encontrava: pão e circo. Tudo era esquecido por meses… Só falava-se em Romário, Bebeto, Branco, Tafarel…

Eu era a Bebeta! Corria e chutava para meu irmão, vulgo Tafarel nestas épocas. Logo menos o drible da Romaria, a caçula, e Branco, o pai de família, chamava a atenção de todos os familiares que avistavam a “pelada” sentados na varanda da confortável casa de antigamente.

E o FIAT ia pela estrada de terra e buracos. Balançávamos de cá e o encontro de cabeças era inevitável. Até que a briga de irmãos culminava. A mãe ficava doida da vida e o pai não perdia o bom-humor acompanhado da calma que sempre carregou.

O choro era grande. A boca da caçula arregaçava até onde não mais poderia conseguir!

E chegamos à escola.

Casarão branco e verde. Janelas altas e pesadas que machucavam os dedos das pobres crianças incomodadas com o vento e a água da chuva.

O tempo na cidade estava bom. Nunca fazia calor tremendo e sempre apanhávamos casacos antes de sair de casa.

A grande Muzambinho se castigava de frio. As paredes encolhiam e rezavam pelo solzinho da tarde… Ai como era bom!

Como era bom não pensar no trânsito, no sapato, na blusa combinando com a ramona na cabeça.

Como era bom sentir o cheiro da poeira penetrante até nas folhas dos meus caprichosos cadernos de menina aspirante à Jornalista.

Era bom assim como hoje é diferente.

Diferente nas suas angústias de mulher crescida, com afazeres, namorado, casa para cuidar, gasolina para encher, compras a fazer, cabelo a escovar, dentes a mostrar e dinheiro a ganhar.

No regular vou participando dos momentos.

Momentos presentes que trazem o passado como explosões dos maiores vulcões da América Latina. Existem vulcões na América? Claro, meu senhor!

O cheiro do café do colega pela sala… é presente do presente! Agora me vou até lá adoçar bem uma xícara de café preto como a preta velha.

Hum…

O vento trouxe alguns respingos da fraca chuva que cai fora de mim e o cheiro me fez lembrar das praias que conheci quando viajava na própria imaginação. Muitas horas de viagens… Dias e dias.

E tem o perfume da amiga que traz à mente o rosto da tia da infância.

Tem a mente produzindo gostos e cheiros todo o tempo.

Agora o aroma reluziu ao milho cozido de beira-mar com bastante sal, para manter a pressão em dia, e um pucado de manteiga melada.

Às minhas memórias dedico todo meu passado e ao meu futuro não esqueço de agradecer o presente de existir agora.

O ciclo se fecha, mas recomeça em tempos curtos, tão curtos que não damos conta do quanto nos reciclamos. Não sei qual será o produto final da minha próxima própria reciclagem… Sei somente que espero não me transformar em plástico vagabundo pelas ruas ambulantes sem tempo para morrer e esperando um pé para ser chutado.

Ah! O bom da memória é o cheiro…

 

NOTA: crônica originalmente publicada na Coletânea ELDORADO, Volume X, págs, 18 à 21.