a dor que é fruto

No som agora toca Mozart, ele me inspira. Deixo meus dedos batucarem as teclas como numa dança típica lá do Sul. Também tem o frevo e o maracatu, tudo do norte. E cadê o meu? Meu norte, você está aí?

Neste vento gelado que traz a nuvem carregada da escuridão da chuva, lavo minhas memórias e digo que precisamos falar das nossas dores. Dos nossos amores, viagens e comidas também. Mas as dores desencadeiam a necessidade, as necessidades.

Já estive do lado de lá da dor, aquele lado que tenho a certeza que a ela não conseguirá me tocar. Como uma criança brincando de pega-pega: “Lá, lá, lá, você não me pega!”. Doce ilusão. Aliás, doce é algo que minha dor a-do-ra. As vezes chego a ter certeza de que ela aparece só pra poder comer um pedaço daquela torta de morangos da padaria, ou o brigadeiro cheio de mequetrefes açucares… minha dor é ambígua e chega sem a menor piedade. E bagunça tudo. Domina quase que todos os poros – que então ficam fedidos sem espaço para transpirar; e abraça minha mente. Paralisando. Gerundiando os dias presentes que quero que sejam passado.

Dor de unha, de amor, de queda, de perda, de barriga, cabeça ou coluna. Dores que cutucam fundo e sábio é aquele que com a dor dialoga! Primeiro observa feito passarinho no ninho, depois vai chegando perto como cutucar onça com vara curta e então abraça o capeta. Que de capeta não tem nada, pois é mesmo um anjo de belas asas que vem assim, de supetão, para avivar a alma!

Cheia de calma, ela deita na cama e se estende para alongar os “porquês” de se aparecer nesta hora. Sem hora, uma velha senhora. Que de mãos dadas com meu corpo grita, chora, grita mais, chora pouco, silencia e vai embora. Depois de uma caixa de droga comprada com receita médica. Ela vai e então penso que nunca mais vai voltar. Rá, doce ilusão deste coração!

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A dor volta. E volta. E volta. E retorna à sua casa. E ocupa seu espaço, enxerga por cima do muro do vizinho, apanha jabuticaba, nutre a horta, faz morada. Anseia pela liberdade!

Quem anseia pela liberdade senão eu, humano mortal, repleto de buracos e culpas? Liberdade que ela tenta me trazer… num embrulho de presente vermelho, fita de laço dourada e bela carta escrita à mão junto ao estado. Limitação. Eis que está nesta palavra minha capacidade de acolher tanta dor e com ela envelhecer.

(dias destes minha filha me perguntou se estava crescendo. Eu parei, olhei para a ansiedade que havia dentro dela e falei que ela está envelhecendo. Que todos envelhecemos dia a dia, desde o minuto que surgimos como humanos no útero de nossas mães)

De minuto a outro, como que num abraço de tia querida, vejo a dor com sorriso melado me olhando de lado… trincheira que quer ceder, lágrima que quer cair, olhar que só quer bailar na emoção do puro da vida provar.

A nós cabe tudo, dores, feridas e a capacidade de receber tão profunda dor como fruto que amadurece. No seu tempo, sem tempo certo. Então cada vez que ela chega retiro as expectativas de com ela me acertar e me entrego a toda intensidade que me cabe. Chego ao meu ponto, me abraço e me quero novamente.

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Ana, Antônio e o filho

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Esta é a Ana. Ana tem um filho de quase dois anos que não vai para a escola. Ele também não sabe o que é ficar chorando até dormir e muito menos o que é ser forçado a comer. Ana tem um respeito acolhedor com seu filho por acreditar que tudo é muito novo quando se trata de uma nova vida, vida nova, vida de bebê.

O marido de Ana é o Antônio e ele também tem um filho – o mesmo filho que Ana. Antônio sempre foi muito apaixonado por Ana e inúmeros planos os dois traçaram rumo ao mundo. Até que Ana pariu o filho dos dois e então eles passaram a ser três – sem dúvidas nas contas.

Este triângulo amoroso tem três lados que não se encontram todos os dias e em muitos dos minutos se bicam como pássaros bravos à espreita do ninho. São mesmo. Todos são animais. Um mais que o outro para algumas questões como, por exemplo, Antônio ser carnívoro e Ana comer ramos de alface. O filho permeia a briga, mas Ana acredita que consumir carne deve ser algo muito além da quantidade de proteínas a colocar boca a dentro.

Antônio e Ana até hoje entram em mundos opostos quando seus polêmicos assuntos surgem nos armários da cozinha, pela sala a fora, na varanda quente, ar condicionado pra dormir?

O que estes dois, o casal, talvez demore a perceber é que estão tão juntos que seus espinhos cutucam a pele alheia vez ou outra. É sinônimo de vida tudo isso. Falar, discutir (que seja), nutrir as diferenças de modo que o filho (ele existe, galera!) sinta que o cotidiano é tão prazerosamente discutível como a política, o dinheiro ou a indecisão entre praia e campo (praia!).

Estar o tempo todo do tempo cuidando para não haver um tom de voz diferente na frente do filho é algo tão escapável pelas mãos que não vale o esforço. Quanto mais reais, mais humanos que somos, mais pés no chão e coração pulsando, mais aprendizado a passar sem precisar ensinar – o filho só faz é sentir. E sentir, aqui neste casal, é tudo!

Ana e Antônio mantém distância da perfeição que não têm e o filho dos dois é uma piada que não precisa ser escrita. Cheio de uma criança que o mundo não levará embora. Cheio de uma vontade que a preguiça começará a dar risada com ele. Ele é filho do casal, mas antes de qualquer coisa, ele é ele. Ana e Antônio acreditam nele não por ser um fofo, mas por ser aquele passarinho com a boca aberta no ninho.

Esse casal quer ter mais filhos, mas não está nada preocupado com o tempo que seus amigos dizem que está passando rápido demais. “O tempo passa no seu tempo”, sempre diz Antônio aos mais pentelhos (mesmo que adultos).

E, todos os dias antes de na cama relaxarem os corpos fadigados de uma intensa rotina de fraldas, relatórios, choros e mamás, eles se nutrem da sua vida assim: normalzinha perante a perfeição que se é ter um filho e ser um casal.

 

Esta semana a Marcela, do Blog Canjica, publicou um texto que me inspirou a escrever esta história do casal Ana e Antônio. Marcela, com seu refinado papo reto, falou sobre os filhos que salvam casamentos (ou nada disso).

Aqui na nossa casa ninguém salvou ninguém até hoje e todos se salvam todos os dias \0/

Colocar esta responsabilidade nas mãos de um filho é pedir para que a frustração faça companhia PARA O RESTO DAS VIDAS.

 

 

 

 

 

CRÔNICA: As lembranças de meus velhos professores


Aquele prédio todo antigo, localizado logo à frente da Praça Pedro de Alcântara Magalhães, lá em Muzambinho, guarda praticamente todos os meus sonhos. Foi lá que aprendi a dividir e a doar um cadinho da minha paciência, um tantão da minha solicitude e, mais ainda, aprendi a respeitar àqueles que fizeram brotar em mim a sementinha do amor pela escrita. Era o Cesário Coimbra, Escola Estadual nascida em 1910 e que acolhe, até hoje, alunos da cidade e região. 

B + A = BA

Dona Petronília tinha os cabelos negros como os das pombas que teimavam em assaltar nossas lancheiras quando o recreio era uma festa promovida no jardim de cara para a escola. Aquele misterioso lugar escondia desde peixinhos imaginários na bela fonte datada de 1910 até armas dos coronéis no Coreto gigante para pequeninos olhos de criança.

E Dona Petronília era calma, atenciosa, me levava a crer que a vida poderia caber na palma da minha mão direita e todo conhecimento que ela amava transmitir, ficaria guardadinho na palma da mão esquerda com imensa facilidade de acesso. Parece que a mágica deu certo. A querida professora do pré-primário – eu tinha já meus 7 anos de idade e até então não havia entrado em nenhuma escolinha – conduzia suas aulas com desenhos, macarrão, papelão, tampa de latinha, garrafa pet, giz de cera, lápis de cor, palitos de sorvete e, naquela cartolina que parecia do tamanho do mundo, íamos completando nossas visões de um certo tema.


Eu gostava mesmo era de Português… viajava pelas linhas das redações ainda sem muito conteúdo. Mas ela me incentivava! Peguei as letras aprendidas e guardei aqui com muito egoísmo. Hoje as coleciono como quem tem álbuns de figurinhas.

E foi então que naquele prédio todo lindo e rebuscado de história os anos passaram e então era a hora de subir de andar. Nossa, me sentia uma mulher feita quando meus cadernos ganharam pautas e eu já podia utilizar as canetas estereográficas.

Agora a missão era com a Dona Mafalda. Confesso que esta marcou na medida certa com seu ar de professora das antigas. Impunha respeito até daqueles colegas que mais queriam pular de carteira a carteira. Dona Mafalda pintou em mim a competição saudável. Naquele quadro-negro-verde ela fazia arte com sua letra impecável. Começava a matéria escrevendo do lado esquerdo e ia percorrendo como quem quer conhecer o mundo pelo mapa. E eu copiava tudo, era rápida. Não tão rápida como a Priscila, uma de minhas melhores amigas da infância.

Penso que a sala devia ser composta por uns 45 alunos, de tão cheia. E cada dia era uma surpresa, um conhecimento, uma geografia que nos levava e uma matemática que nos somava.

Ah, quando passei para o 3º ano do grupo eu era ainda mais importante. Tinha duas professoras: Dona Ana e Dona Cleonice. Dona Ana parecia aquelas mães boazinhas que deseja só ensinar para o filho aprender. Minhas lembranças falham ao delimitar quais eram as disciplinas que cada uma ministrava. Mas sei muito bem que Dona Cleonice era professora de Português, meu querido amigo. E foi ela mais uma escada rumo aos meus 18 anos e a difícil decisão imposta por decidir que profissão seguiria. Uma criança escolhendo seu caminho…

O dia mais importante da minha vida escolar foi quando eu saí do “Grupo” para estudar na Escola Estadual Professor Salatiel de Almeida. Pomposa por estar situada bem no meio da Avenida – a única – da cidade mineira.

Aulas de Geografia com a tia Ina, de Português com a minha mãe, de Biologia com o excelente João Mamede. A biblioteca desta escola parecia um museu. Por lá eu ficava durante o intervalo – não era mais recreio. Alugava algum livro e partia rumo à minha imaginação lendo toda a coleção Vagalume e tantos outros títulos.

Do estadual para o particular com bolsa quase integral. E lá foi mágico… a estrutura da escola era coisa de cidade grande, os velhos livros foram passados pra frente e tínhamos apostilas para cada matéria, tudo colorido e com interação com o aluno. Eu fiquei encantada.

E penso que aproveitei a oportunidade. Lá conheci pessoas que me fizeram pensar além da menina do “Grupo”. Minha consciência começava a brotar mais firme e minhas ideias eram todas passadas para o papel e, às sextas-feiras, aula de Redação com Dona Regina. Suspiro neste momento com grande saudosismo. Esta senhora que é uma menina, destacou os pontos fortes do meu texto, rascunhou os menos interessantes e, por alguns anos, fomos lapidando meu estilo.

Aulas de Matemática com a tia Delze, uma mestra. Geografia com o Antonio Carlos era uma festa do descobrimento e a História da Mara… ah, Mara, quantas histórias fiquei sabendo durante nossas aulas. Amadurecimento constante. Biologia era dividida entre o temeroso Tonzé e o querido Usaldo. Química era ensinada aos gritos equilibrados do Pedrão, aquele que me deixava de castigo junto aos meus primos Gustavo e Felipe só porque falávamos demais durante suas aulas. Ufa, aquele cantinho no tablado e atrás da cortina era tenso. Bullying? Que era isso…

E então eu era conduzida pelo mundo mágico da Literatura com um dos meus grandes exemplos de ser: Fábio. Fábio não dava aula, fazia teatro. Fábio não falava, encantava. Fábio não menosprezava, enxergava potenciais. Este professor fazia meus olhinhos brilharem a cada novo conto, a cada nova era da nossa literatura. Lembro muito bem, entre tantas outras, da aula sobre a Semana de Arte Moderna. Ele não sabe ainda, mas o melhor presente que ele me deixou foi minha amizade com Clarice, a Lispector. O livro era A hora da estrela e assim como Macabéia eu sonhava… e derramava lágrimas a cada nova descoberta.

Meus velhos professores se renovam constantemente dentro do rebuliço desta nova era. Eles estão guardados aqui no cantinho que expande a cada dia. Expande nas buscas, nas revoltas, nas pretensões.

Penso que essa molecada de hoje em dia ainda vai encontrar nos seus mestres seus futuros. Educação… nada mais importa tanto na essência de ser.

Meus velhos sempre jovens, a vocês meu pleno respeito e minhas humildes palavras. Do passado, vocês me deram meu hoje!
Da eterna aluna,

Marília Gabriela Viana
Fotos por Thadeu Varoni (http://thadeuvaroni.blogspot.com.br/2010/10/muzambinho.html)

Essa é a minha birra: me respeitar!

Eu poderia passar horas falando (escrevendo) sobre as dificuldades de se ter um filho. Longe das ideologias, distante dos comerciais, nem perto dos filmes e mais mais mais abstrato ainda que ao lado de outras mães.Para não entrar na roda da cobrança (quase sempre desnecessária), fujo para meu abrigo de luz interior que deixa meu instinto seguir leve e pesado, leve e pesado, leve e pesado… mas é meu!

Hoje minha filha está com um ano e oito meses. Eu não parei de trabalhar por ela, já havia deixado para trás o que “não” era meu trabalho. Não estou em casa só para cuidar da minha filha: acredito na educação como forma de transformação social. Se eu não educo, procurarei uma escola para poder cobrar a educação dela no futuro? Não… não sem antes eu e ela termos vivido um tempo de descobertas (que sim, sei que serão eternas, ainda bem!), de respeito, de visualização do mundo, das pessoas, das necessidades, da doação, do perdão, do recebimento, do pedido. Ela pede ajuda. Ele oferece seu pão. Ela diz “é meu” com propriedade para eu entender e respeitar – não, não acho que ela seja egoísta por isso, ok? Ela é saudosista. Ela faz bico, se joga no chão quando sente que algo não está legal pra ela. Ela me olha nos olhos quando digo “Filha, deixa a mamãe te falar uma coisa”. Ela não dorme à noite toda, mama muito e acorda dizendo “oi mamãe, oi papai!” numa alegria que o que passou foi apagado. Quando estou com um bebê nos braços, muitas vezes ela chega querendo meu colo e isso não é “ciúmes”, é sobrevivência. Ela não precisa aprender a dividir assim, falado. Ela vai aprender sentindo. 

Eu trabalho nos cochilos dela. Ela dorme enquanto eu trabalho. Agora, estou assumindo mais compromissos e ela vai junto ao nosso espaço de coworking. Lá ela brinca e eu trabalho. Às vezes vou mesmo mais pra tomar um café e vê-la solta na areia ou correndo atrás do Filo, seu amigo coelho. 

Haja fôlego pra nós, mães! 

Haja fôlego pra eles, filhos!

Esquece esse negócio de “ô vida fácil, hein filho?!”. Nada é fácil quando tudo é novo. Nada é tranquilo quando estamos nervosas, cansadas e preocupadas. Eles sentem. Sabem melhor que nós e tentam nos mostrar com seus choros sem motivos e apetite quase zero. 

Não por isso serei eu a mãe querida pela família e sociedade. Essa é a minha birra: me respeitar!


@assimsimples 

mergulho na criação

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A criação de um logo funciona como uma viagem à praia pra mim:

preciso mergulhar no mar de possibilidades que fervem na minha mente, sentar na mesa limpa e passar o sorriso bobo pro papel (papel digital, tenho preferido).

Quando o “cliente” chega com seu arsenal de ideias, explicando tim tim por tim tim seu sonho, eu escuto tudo – ou quase tudo, confesso -, guardo numa caixinha mental as palavras e vou construindo uma história banhada pela água do mar, lavada pelas ondas e imaginada pelos meus miolos que não sossegam.

Vejo cores, desenho a fonte, rabisco o personagem, construo sua essência (chamo de essência o slogan, essa frase que fica geralmente embaixo dos logos).

“um crochê diferente” é tudo que a leleZOO tem. E isso é muito! Cada peça produzida por ela, a Lele, traz reminiscências de um tempo onde ela, primeiramente, observava sua mãe compondo pontos e formando peças em crochê. A ela coube a criatividade de um novo tempo (o que estamos) para reinventar as agulhas!

A mim? Traduzir esse amor com suavidade, objetividade, modernidade, singeleza, carinho e mais inúmeros papéis que assumi para compor a identidade visual dessa marca.

É sempre uma delícia ver o resultado, acatar os pitacos e dar vida a um sonho.

leleZOO, ganhe o mundo!

Aqui temos um pai, que amamos!

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Ele não nasceu junto com a minha filha e muito menos na primeira troca de fralda. Ele chorou quando a pegou pela primeira vez nos braços e me olhou com força nos olhos como quem diz: “Estou aqui”. Foi nesta mão que eu agarrei com a mesma força do seu olhar.

Mas ele não nasceu ali, no meu parto. Não de elo e coração. Sim de instinto. E olha, isso não tem problema algum e eu só percebi agora, um ano e meio após nossa filha abrir os olhos aqui fora.

E vejo muito esta cobrança sem fundamento, sem olhar dentro, apenas almejando a cúpula perfeita de uma família.

Pai nasce aos poucos. Ele vai chegando ao mundo num desespero tamanho ao do filho. Ele chora por dentro – ainda não consegue chorar pra fora. Ele faz coco na fralda, ele quer mamar no peito, ele olha pra mãe pedindo colo de uma mãe que já teve. Pai de seu primeiro filho não estaciona o carro pra esperar o arroto e vai trabalhar depois dos cinco dias de licença paternidade. Isso é de uma tremenda crueldade… Todo aquele cafofo do quarto que ainda cheira à verniz, o café coado às pressas toda manhã, um esforço danado pra chegar em casa após o dia cheio e, ufa, sentar-se à mesa para jantar acompanhando toda a complexidade natural da introdução alimentar.

Ele não está ali o tempo todo. Presencia alguns poucos momentos cruciais e nós, mães, vamos maquiando toda esta falta. Vamos nos agarrando aos pés que pisam como nós e encontramos maneiras de peneirar a tristeza da ausência que pra eles também aperta o peito. Peito que vaza um leite sem pressa.

Nesta pressa toda o pai aqui de casa sofreu uma pressão enorme da mãe que me tornei. Eu sabia como minha filha queria que a segurasse nos braços, eu sabia como a embalar para dormir, eu sabia os momentos de água, os bocejos por respirar ar puro. Eu sei até hoje, claro. Mas queria tanto que ele soubesse… Me diga como?

Armei uma barraca super-protetora e nos coloquei lá dentro, eu e minha bebê. O pai chegava “sujo” da rua. Trazia com ele o estresse do colega, o pneu furado e eu estava ali, naquele mar de rosas sentindo e conhecendo profundamente um ser que era todo meu. Queria tanto que fosse dele também… Me diga como?

E sem culpa, abro meus olhos para reconhecer como é bom e como tudo tem seu tempo de ser. Só agora ele é pra mim o pai que sempre quis que fosse pra ela. Ele nunca foi perfeito, nunca será, mas que perfeição é essa? Quem ditou as regras mesmo? Nós nem assistimos à televisão e nossos filmes são tão realistas de dramáticos. Tirei tudo de alguma novela que chegou ao seu capítulo final! Melhor que isso? Não tem mocinha beijando o galã, não tem casamento no altar com véu quilométrico e muito menos família almoçando embaixo de uma linda árvore tomando coca-cola. Sabe o que tem aqui em casa?

Ah… Tem pai cansado se desdobrando, tem pai ninando boneca do tamanho do seu dedo do pé, tem pai olhando nos olhos pra falar com a filha, tem pai bravo, tem pai que canta musiquinha infantil sem saber que sabe cantar, tem pai colocando o sutiã da mãe pra filha sorrir, tem pai jogando bola e tirando fina da decoração da casa, tem pai fazendo jantar, pai trazendo vinho pra mãe, pai cozinhando milho, comendo resto de feijão e suando até o bigode ao fazer a bebê dormir. Tem um pai do jeitinho que consegue ser. Nem mais, nem menos. Só na espreita pelos detalhes que pega no ar do seu auto-conhecimento.

Isso nem tem nome. Nem digo que aqui tem um “pai real”. Aqui temos um pai, que amamos.

 

saiu lá no Canjica: VA GI NA

Tive um parto natural em casa. Isso há um ano e (quase) seis meses. Nossa, minha filha já tem quase um ano e meio, senhor! Bom, mas o que sempre querem saber é sobre minha vagina… Tadica, tão querida, mas tão reprimida.

Então a Marcela, do blog sucesso Canjica, me perguntou sobre essa questão e escrevi um depoimento bem sincero. Ela somou com dados e está aqui: nossa contribuição para as vaginas amadas desta vida 🙂

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Dificilmente a vagina continua exatamente igual após o parto. Isso não significa que ela fica larga, frouxa ou qualquer uma dessas bobagens, mas sim diferente. A verdade é que a gravidez muda nosso corpo, independentemente da via de parto. É um baita peso lá embaixo, órgãos apertados, pele que estica. Aceitar essa transformação é o primeiro passo para fugir da loucura que é tentar acompanhar os padrões.

A mídia nos mostra Déboras e Giseles trincadas em dez dias. A visita diz que sua barriga já diminuiu, como se esse fosse o melhor elogio do mundo, como se, com um recém-nascido nos braços, essa deveria ser uma preocupação. Os comentários sobre aparência e forma física são constantes para todas nós, mas, se você teve um parto normal, o que todos querem saber e poucos tem coragem de perguntar é: como está a sua vagina?

No parto natural o bebê atravessa o canal vaginal, é sabido. Nosso corpo é preparado para isso, mas é claro que pode causar impacto, especialmente no primeiro filho. Se você conhece bem o seu corpo, já analisou a sua vagina com um espelho e tem intimidade com ela, vai perceber mais mudanças. Algumas mulheres não notam absolutamente nada. Outras sabem que algo mudou, mas não conseguem identificar o que. Talvez apenas a percepção de si.

Como se não bastasse a rave de hormônios, o pós-parto também é momento de reconstruir nossa relação com o corpo. Assim como ele não fica igual após uma cirurgia (como a cesárea), ele não é o mesmo após um parto natural. Uma estria pode surgir no umbigo. Um corte na barriga pode infeccionar, dar queloide. Um ombrinho que passa com força pode lacerar o períneo. São as marcas da vida. O tempo cicatriza toda e qualquer ferida, mas a aceitação acelera o processo.

Para lhes presentear com doçura e compreensão, compartilho a experiência da Marília Gabriela, amiga querida do @Assim, sobre a laceração em sua vagina. Sim, vagina! Todas temos e podemos falar sobre ela. Próximo passo: como fica o sexo? Aguardem! 😉

Marcela Feriani * Canjica

“Laceração passava longe das minhas questões durante a gravidez. “Nada importante”, eu pensava. Até que ela chegou à minha vagina e então toda aquela distância ficou perto, muito perto de uma impotência e desconhecimento gigantes.

Durou pouco esse turbilhão. Logo me reconheci com aquela costurinha no períneo. Mas foi intenso, foi profundo, foi dolorido pra caramba e, mais que tudo, foi feminino. Senti várias interferências vindas da minha laceração. De primeiro foi só amor pelo meu bebê. Meus olhos não enxergavam minha vagina assim, de cara. Ela ficava lá, quietinha nas partes baixas e eu, quietinha nas partes altas amamentando.

Todo aquele calor que passou pela minha pelve no momento que minha filha viu à luz, não me rasgou no físico apenas. Desconstruiu a imagem, construindo o meu ideal. Eu pari assim. Naturalmente, na sala de casa, sentada, totalmente introspectiva, ligada a sensações muito mais prazerosas que um corte no períneo. E eu juro que isso tudo fez parte do meu parto, do meu pós-parto e hoje é como um livro que vez ou outra pego da estante da mente para lamber as páginas. Sim, foi animal.

Já assisti a vários partos de vacas no pasto. Algumas tinham seus bebês arrancados pelos camaradas da roça, outras faziam movimentos sutis de quadril e pronto, os bezerros nasciam. Caiam ali mesmo, no mato. A mãe lambia aquilo tudo, comia a placenta, deitava logo depois e, ainda com as pernas bambas, a cria chegava, aconchegava em suas tetas cheias.

Coloquei aqui essa metáfora, pois a delicadeza de um períneo lacerado pela cria é animal. Coube para mim a sensação não comprada e nada querida. Eu pari da minha maneira, e meu corpo falou.
Depois, eu conversei bastante com meu períneo. Por dias até os pontos caírem. Ouço muito: “Ah, mas eu nem precisava dar pontos. Deu por precaução”. E, veja bem, ouça: nada tem de importante na quantidade de linha que sua parteira vai usar em você. Pouca ou muita. O períneo é seu e quem conversará com ele intimamente por dias (e tomara que por toda a vida), é você.

No meu caso, Rafael foi meu curandeiro. Cuidei de mim e ele mais ainda. Voltava para casa todos os dias no horário de almoço para secar com o secador de cabelos, borrifar chá de camomila geladinho, preparar o absorvente com ervas calmantes, me dar um beijo e dizer “Sua vagina está linda”- mesmo eu duvidando tremendamente e não querendo olhar pra ela. Só a sentia. Passada a mão lentamente e sentia um elevado que antes não tinha ali.

Minha filha mamava sem tempo e lembro da sensação de que tudo ia cair quando eu me sentasse ou me levantasse. Era uma pressão lá embaixo! Isso por alguns dias e foi amenizando no passo da minha sensação de fazer aquele corpo estranho pertencente. Quando vi, era tudo meu! E isso foi ótimo.

Lembro, também, da dor que passou raspando em mim… Era algo como a tal impotência que citei lá na primeira linha. Senti muita indignação e queria sair contando pro mundo todo que tudo bem ter uma laceração no parto, que ela é sua, seu corpo, suas mãos te conhecendo. Queria dizer que o mistério que senti ao ouvir mulheres falando baixinho das suas vaginas, era algo que podemos gritar mesmo. Homens falam de seus pintos tão abertamente, não é mesmo? E sei lá, nem pelos homens. Por nós mesmo, mulheres que parimos. Que sentimos o chamado ancestral de hurrar como leoas, avós e termos ao lado parteiras segurando com os olhos.

Ainda existe algo muito sutil que nos separa de nós mesmas. Algo que buscamos em sites e vidas perfeitas da internet. Algo que nos distancia da dor, do luto, do peito rachado, da vagina caindo pela casa. Do sangue, do lençol manchado, da teta inchada. Todos nos dizem. E ninguém nos respeita. E isso dói, pois queremos dizer, mas naquele momento de fundo do mar que é o puerpério, a voz sufoca.
Não existe dica de “isso ou aquilo”, mas troca. Viva a troca, a mão no ombro, o chá calmante e o bom repouso. Viva o respeito pelo nosso corpo, que sabe muito bem o que faz.

Obs: os exercícios para fortalecimento de períneo recomendados durante a gestação são ótimos. Não fiz nenhum. Mas pegue-se a eles como você tendo uma conversa com seu corpo, não apenas você fazendo com o fim único de não se lacerar. Vamos sair dessa corrente social da culpa, da expectativa ideal. Calma, respira… Está tudo bem e vai ficar tudo ótimo. Confia!”

Marília Gabriela * Assim

Se quiser ver do que nosso corpo é capaz, dê uma boa olhada nessas fotos (não clique se mulheres nuas trazendo pessoas ao mundo te incomodam): http://www.paulapoltronix.com/#!partos/cwvn

 

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Imagem: Elisa Riemer

 

A leveza de libertar-se

 

Quem mesmo disse que você precisa ser mãe? Que ser mãe está no pacote de ser mulher? Quem mesmo apontou pra você na rua dizendo que “já está velha” e que suas amigas estão se casando, tendo filhos, vivendo vidas perfeitas?

Oras, oras… Essa mania machista de colocar coisas na sua cabeça me deixa inquieta! Ainda mais depois de te ver assim, toda cheia de medos. Juro que consigo te entender. De dentro pra fora, bem fora da caixa. Entendo quando você diz que sua prima está programando o segundo filho, que quando vê minhas fotos no Instagran me acha “mãezona”, que deve doer absurdo assistir ao casamento de um amor.

Mas amiga, amiga minha, me escute: fuja disso tudo! Principalmente dos seus pensamentos. Eles estão tão contaminados de uma perfeição que não existe. Nós estamos todos contaminados. E esse foi um assunto muito conversado na semana passada quando nos reunimos em casa depois das crias dormirem.

Chega a ser doentio como precisamos nos espelhar para viver. Como quem vende essa vida maravilhosa faz sucesso. Como quem compra esse estilo é infeliz. E infeliz por vários motivos, mas principalmente por não entender que essa infelicidade não é sua, entende o que digo?

Por isso (e mais issos), abandonei muito a rede social de maior sucesso no mundo. Chegou um dia que percebi que eu estava vendendo essa perfeição sem ser perfeita. Quem é? Então deixei de lado esse tudo para viver, simples. Não que seja simples viver, mas viver com o simples acaba sendo mais leve.

E está aí a palavra da vez: leveza.

Olhe seus cabelos louros lindos, seus olhos de cor inigualável, sua alma ensolarada, seu sorriso de Monalisa. Minha amiga! Pare tudo agora mesmo! Quase chego a te ordenar.

A vida que você está buscando não é sua. Ser mãe é tão lindo quanto ser Nutricionista – sim, senhora. E entenda isso como quem diz: “é uma merda têm dias e é algo inexplicável têm dias”. Ok?

Falo assim para me colocar ali, no seu rumo, olho no olho, estamos juntas. Somos mulheres e eu sou uma mulher que nasceu sendo mãe. Não escolhi isso, veio aqui, grudado em mim. E você é uma mulher que nasceu para ser você. Falta muito ou pouco. Quantidade é uma ova, foda-se! Falta nada e você tem tudo. Tudo que precisa para se descobrir aos poucos, bem miúdo, bem cutucado, bem mal resolvido, bem vivido.

Te disse ontem… Esperar resolver-se com seu passado para viver seu presente é mera ilusão dessa passagem comprada pra vida alheia. Ninguém está resolvido. Ou mesmo se todos estiverem resolvidos, e daí se você estiver completamente e toda mergulhada na perdição?

Caraca, me diga o que é a vida perfeita?

Dias destes uma amiga linda estava dando dicas para congelar comidinhas pras crias e meio a este assunto super interessante, ela disse que congelar não é o “ideal”, mas que as vezes ela não consegue ser uma mãe ideal. Pronto. Está aqui a questão da culpa comprada. Afinal, me diga o que é mais ideal do que você fazer o que seus braços conseguem, seu coração tranquiliza, seu dia-a-dia pede?

Está vendo, amiga?

Deixe nascer em você só aquilo que te pertence. Deixe ir o aluguel caro, o corpo perfeito, a imagem imaculada da prima. Foda-se tudo isso!

Estou cheia dos palavrões hoje, né? Mas esta carta quer estar na sua casa dia sim, dia também. Mas não quero ser o aval que você precisa, porque o aval que você precisa é você. No seu tempo, momento. Sem “querer ser”, mas sendo o que tiver pra hoje.

Eu tenho uma amiga linda – que não é você, mas que está num processo de auto-conhecimento maravilhoso e intenso. Eu sempre estive neste processo também, durante toda minha vida. Seguindo meus passos, mas querendo ser melhor, me conhecer mais, enfim. E esta amiga está dando goladas e me oferecendo um copo cheio deste caminho. Foi difícil parar para perceber que neste momento, este momento é só ela. Está acompanhando meu raciocínio? Eu agora preciso de liberdade para não me procurar em lugar algum. Doeu reconhecer isso. “Como posso fechar meu terceiro olho?”, pensei várias vezes.

Mas aí, quando me livrei de que isso não era meu… caramba! Foi uma revolução deliciosa de profundo sentimento de liberdade.

Tenho certeza que estou nessa vida pra isso… Pra me libertar! Vamos comigo, amiga minha?

Deixamos Julieta em casa para assistir à Julieta no cinema

Há uns dias – assim, mais salientes –, venho querido sentir meus sentimentos de antes, vestir minhas roupas de ontem, saltos no frio e ter as mãos livres para pegar nas dele. E quero isso sem culpa, o que tem me feito bem. Quero como casais de namorados apaixonados que esperam o final de semana para despir-se. Eu quero mesmo é só despir-me da mãe, ou do papel da mãe que me domina da cabeça aos pés – que eu amo e que me ama, mas que sufoca.

E sem plano algum, o planejamento tomou forma e pronto, teríamos nosso primeiro encontro após o nascimento da nossa filha. Julieta.

Estava eu lá, sentada no sofá macio da nossa sala, saboreando uma bacia de pipoca que explodia como estrela e descia como cadente em mim, sozinha, numa noite agradável e com uma taça de vinho querido tinto nas mãos. Estava lá sem expectativas, de nada. O filme era francês e era comédia. Eu dava risada e tomava as entrelinhas em goladas saborosas que só um bom parisiense (com todo respeito), sabe entorpecer. Então, numa mexida leve no sofá, tela preta de final de película, aparece uma loura linda, cabelos minúsculos e batom vermelho – claro. As micro-cenas eram curtas (sim), fixaram meus olhos. Na hora pensei que veria aquele filme que foi ali me apresentado como trailer. Então na tela: “Almodóvar”. Então o nome do filme: “Julieta”.

Sorri com meus olhos, com minha boca, com meu corpo todo. Dancei no chuveiro e me permiti todo exagero de alguém que tem algo com o diretor a mais que só apreciação de enredos, cores, bocas e sexos. Sempre dei permissão a ele que entrasse em mim. Almodóvar, desde que vim morar em Campinas, escreveu roteiros para meus passos e eu vesti suas roupas sem apego, deixando a leveza da intensidade dominar, me dominar. A dramaticidade nos permeia num bailar constante de américa envolvente. Ele lá, eu cá, eu cá vivendo como ele enxerga a vida lá.

Bom, mas ele me amarrou de novo em suas pernas, me deixou sem ar, me tirou os pés do chão, me fez pintar os cabelos de negro, os lábios de vermelho sangue e colocar meias que me deixam mulher, mais. E isso foi ontem. No dia que decidimos jantar fora sozinhos, pela primeira vez em um ano e cinco meses.

O dia passou leve, numa brisa. Ora ou outra eu dizia à minha filha que naquela noite ela dormiria com a dindinha e que mamãe e papai sairiam para jantar. E ela respondia: “Vinho?”. “Sim, amor, vamos tomar vinho”, eu completava.

Foi uma garrafa num piscar de olhos. Vinho português que aqueceu e amoleceu dois seres que se encantaram com suas presenças.

“Você está linda, radiante!”, dizia ele.

Com os olhos eu afirmava que estava linda sim, sabia que de dentro de mim saiam raios de uma alegria inenarrável. Duplamente feliz: minha filha estava em casa e dormiria (pela primeira vez), longe da teta e, depois do jantar tranquilo (sem correrias, comidas voadoras e muita paciência), rumaríamos à sala 3.

Deixamos Julieta em casa para assistir à Julieta no cinema.

Não acho que é o filme mais suave de Almodóvar. Ou talvez seja, mas para olhos que enxergam cenas. Para olhos que pegam o ódio que existe no amor, é um filme terapêutico. Difícil. Alucinógeno, foi pra mim.

Fiquei horas após o fim recordando minha última carta escrita ao meu diretor contando sobre meus dias, nova rotina, amamentação livre e constante, alegria ao dormir, vontade de sumir. Falava a ele das confusões mentais, do estresse corporal, do prazer carnal. Dizia sobre o riso dela, como ela se parecia comigo, das minhas culpas, dos retratos da infância, dos quereres sumir do passado, das mortes diárias. Falei tudo isso a ele em palavras longas.

Ele me entendeu do inicio ao nunca fim. Almodóvar me abraçou à distância com a tradução mais fiel e intensa sobre tudo que relatei, na forma de um filme. Eu disse a ele que ela tinha nome de amor dele: era Julieta, minha menina. Ele encantou-se.

Com toda suavidade perceptiva fiquei a encarar-me no espelho desejando por mais encontros, cinemas, vinhos, dindas para ninar, Julieta para me orgulhar.

Como noutras vidas vividas nesta mesma, ontem fechamos um ciclo. Hoje pisamos mais leves em casa, acordamos meio congestionados, pois o corpo quer se limpar. Estamos aqui. Falando baixo (como ele) para escutar/entender/sentir/deixar ir a morte do que éramos ontem.

Foi lindo!

 

Um pediatra, uma mãe… Nosso mundo em evolução 🎼

Eu amo a possibilidade de pensar. Por mais óbvio que isso possa parecer, creia, não é. Pelo simples fato de que o não pensar é mais fácil, nos sentimos seguros com as opiniões prontas, afinal, elas já foram vividas. 
Voltei (voltamos) de São Paulo mudos e calados. Eu de um lado com os olhos pescando tamanhas eram as interrogações – e também muitas exclamações, claro!, que ele me fez ver. Não, eu já as via. Mas elas ficaram aparentes, claras, tocáveis. Tão tocáveis que me calei para pensar em cada uma. Cada pedrinha que eu pisava diariamente por motivos variados que me minavam do poder de tirá-las do meu caminho. Ou então pegá-las com as mãos e começar a erguer um castelo. Por que não?

A consulta foi longa, cheia de prosa, mais vinda que ida naquele ambiente em que Julieta se perdeu por minutos para depois respirar, sentar-se e, ufa, balançar no cavalinho de madeira. Ele “só” a observava. Jogava no lago a isca para garantir que os peixes estavam acordados. E os peixes ainda dormiam com a filha crescida, nutrida, saudável, amada e amável. 

“Com ela está tudo bem, inegável e visível. Mas e vocês?”, perguntou Caca. Pediatra com uma formação impecável, ele foge dos parâmetros que estou acostumada quando o “Dr” assume posição anterior ao nome. 

Nos acomodamos no chão, naquele tapete fofinho como o colo dele que me deu vontade deitar a cabeça pra receber um cafuné. Sim, foi nesse grau de intimidade que me senti. Talvez não tenha transparecido esse contato a ele, já que como peixinha dorminhoca, em muitos momentos pensava só nas respostas.

Minha cabeça sempre fugiu da matriz e por este motivo sempre fui taxada de “maluca, doida, subjetiva e dramática demais” – essa era eu, que nunca fui. Mesmo assim minhas poesias continuavam retratando minhas dores internas e meus textos toda intensidade que eu penso que a vida merece. 

E, cara… O Caca está aí pra provar! Ele e tantos outros profissionais e mães que estão cruzando meus caminhos nos últimos tempos. Sim, complexidade faz parte da estrada de quem pensa. E sim, quero toda essa complexidade permeando meus passos enquanto deste mundo eu fizer parte. 

Voltei de lá e comentei com amigas com ar inquieto em como tenho sede para cutucar as escolhas, dedilhar as feridas, saltitar pelos poros! Não tenho sossego e minhas amigas também não. Não temos sossego como mães (da licença: mães de esquerda) que querem pensar a vida. 

E me conta qual é a melhor escola para uma criança que o exemplo dos adultos? 

Esse médico ali, sentado no chão, alinhavou um bom pedaço da colcha que estou costurando. A Fabiolla (do Colher de Pau, amor eterno), passa a linha na agulha quase todos os dias aqui em casa! Minha terapeuta acaricia as minhas asas que estavam amassadas embaixo das blusas. Eu? Quero tudo isso. Quero cutucar ainda mais. Quero saber que não sei nada. Quero mais quatro filhos. Quero assistir a inúmeros filmes franceses, viajar com meus bebês e tomar garrafas de vinho sem pressa mesmo tendo um neném acordando para mamar muitas e inúmeras vezes. Quero respeitar o meu tempo, olhar nos meus olhos, sentir o vento que assopra para trazer brisas que me fazem inflar os pulmões. De amor, de dor, de sofrer, de alegria, de raiva, de união, de tudo. Tudo faz parte do todo, né?